Uma maior solidão Lentamente se aproxima Do meu triste coração.
Enevoa-se-me o ser Como um olhar a cegar, A cegar, a escurecer.
Jazo-me sem nexo, ou fim... Tanto nada quis de nada, Que hoje nada o quer de mim.
Fernando Pessoa
(Uma maior solidão, 1931)
"A solidão é a mãe da sabedoria".
L. Stern
Estar só é a condição original de todo o ser humano (Martin Heidegger 1889-1976). Será a solidão o preço da busca pela própria liberdade? Não seria contraditório deixar-se só, libertando-se e ao mesmo tempo permanecer buscando o amparo e a segurança no outro?
Estamos sós e ao mesmo tempo acompanhados. Ao deitar-me, quando minha cama de casal torna-se território vasto e longínquo, estico-me fisicamente, movimento quase terapêutico, na tentativa de esbarrar-me em alguém. Não há nada, como a rosa dos ventos, bússola que nada marca além do norte, em minha volta. Travesseiros, edredons e vazios...
A luz se apaga ao comando meu, estou na presença de mim mesmo, consciente de que estamos sós no mundo, mundo de morte e de vida, mundo de escolhas, ganhos e perdas. Morre o desejo, morre a existência da “coisa”, morre a vontade, morre o projeto. Dual, complexo, vital... nasce outra vontade, outro projeto, outro desejo... complexo destino, porém, tudo morre.
Estou só no território noturno, a primeira companhia é minha própria existência. Estendo os braços, toco a mim mesmo, não consigo tirar os olhos do meu próprio ser. Temos de vencer a primeira solidão, aquela que experimentamos conosco, da qual não há fuga... sua presença é imperativa e nos mostra toda nossa vida e mesmo que a fuga pareça ser a melhor forma de enfrentamento, precisamos evitá-la (não há para onde fugir).
Li outro dia, não me recordo onde e também não sei o autor, que a morte é apenas um “entrar” na solidão, uma vez que ela (morte) é um sentimento pessoal e intransferível. A lógica é que não vivemos a solidão do outro e muito menos a morte do nosso semelhante, estes são sentimentos individualizados. E é nesse sentindo, que não compreendo a sua solidão, a sua liberdade ou o seu estado de euforia ou sua satisfação de estar com os outros. É nesse sentindo, que sua liberdade se torna a minha solidão e sua satisfação, a minha incompreensão.
Respeito, sem entender, mas também sem o esforço da compreensão, pois este poderia levar-me a apreender um significado que poderia não representar o seu sentimento, de forma que, o único sentimento que posso ter é o mitológico e bíblico destino de Adão (aqui neste exemplo, sem Eva), ser expulso do paraíso, mas com a maior das punições, não se esquecer do que já teve um dia e ainda, amargar um sentimento de saudade e solidão, daquilo que acreditou possuir. Adão permanece como indigente, à porta do paraíso, a esmolar caridade e compreensão dos querubins que ali estão para impedi-lo de adentrar o seu próprio “ser”, seu éden perdido.
Escrito por Alexandre Miranda de Souza às 13h32
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