“A vida corre

nas pernas do tempo,

E o tempo...

Tem asas de vento.

O vento... o vento

corta a alma rasgada

pelo desencanto”.

(Olga Silveira)

 

 

 

"Compreende-se que a perfeição não pode deixar de ser determinística, no sentido de que só o melhor absoluto pode ocorrer. Tal é o sistema incorrupto dos espíritos que não erraram e não caíram. Pode, pois, deste ponto de vista, parecer mesmo que o arbítrio humano, além de ser um resíduo da liberdade originária, seja um produto da queda, visto que a escolha significa uma incerteza e uma procura do melhor absoluto, que se perdeu e ainda não foi reconquistado. (Pietro Ubaldi – Livro: Deus e Universo)"

 

O que é perfeito para você?

 

Será que a perfeição está no melhor absoluto, ou na busca de um sistema incorrupto? Será o arbítrio humano uma falha da possível queda, a incerteza da busca pelo melhor absoluto?

 

O que é perfeição para você?

 

Nesse mundo cruel (protótipo da nossa incompreensão), buscar a perfeição pode parecer uma fuga do que incomoda nosso próprio “eu”, do que não está enquadrado em nossos padrões de expectativa. Vivemos em pequenas fugas cotidianas, empurramos dilemas todos os dias para um “mais tarde” que nunca chega e por isso, perdemos de vista pequenas coisas, às vezes banais, mas que nos fazem felizes. Portanto, nos fazem felizes ao lado do outro, esse individuo que nos é tão diferente e ao mesmo tempo tão semelhante, em desejos e expectativas.

 

Ontem estive rodando pelo centro da cidade e observei as coisas e as pessoas com olhos que há muito tempo não os tinha. E me fiz essa pergunta: o que é perfeito para mim? Resolvi então enumerar minhas pequenas felicidades, ou melhor, coisas que às vezes não percebemos, mas que nos trazem o encantamento.

 

Um abraço carinhoso, despretensioso, não importando se quem recebe é do mesmo ou do sexo oposto. Um aperto firme de mão. Uma conversa descontraía, mas mirada nos olhos. Café com licor amarula e uma boa conversa com um grande amigo. Delicadeza nos gestos. Sensualidade nas idéias. Carinho nas mãos. O cheiro do outro. O sorriso do encontro, depois da saudade doída. A voz ao telefone. Sentar na escada esperando o ônibus. Rodar a praça esperando que um banco fique vazio para admirar as fontes. Acompanhar até a porta. Simplesmente ouvir. Tocar os cabelos. Sentir o calor do corpo. Andar simplesmente acompanhando. Rir da risada do outro. Não preocupar com horários. Não fazer nada em companhia de um amor ou de um amigo. Comentar sobre um bom livro. Elogiar o outro. Cumprimentar a todos. Desejar o reencontro. Dizer sempre que gosta ou acha algo lindo naquela pessoa especial.

 

Eu poderia ficar aqui descrevendo incontáveis singelezas ou simplicidades, mas acho melhor deixar você buscar as suas... de preferência em boa companhia.

 

 

***

 

O que seria do coração se não existissem as flechas do cupido?

 

 

***

 

Hoje em uma reunião com uma mãe de aluno, acabei pegando uma criança de colo em meus braços, pois a mãe estava muito exaltada por causa dos problemas do outro filho, o motivo da reunião. O bebê ficou tranqüilo em meu colo, fui matando a saudade dos meus tempos de pai (de filho daquela idade) ele foi se ajeitando em meu colo até dormir. Ficava olhando em meus olhos enquanto fechavam de sono... acabou dormindo... e eu fiquei com aquela criança nos braços, por quase toda a reunião... isso foi uma pequena felicidade...



Escrito por Alexandre Miranda de Souza às 15h52
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“La noche no quiere venir

para que tu no vengas,

ni yo pueda ir.”

 

 

Existem inúmeras formas de se comunicar, ou se fazer contato. A modernidade nos disponibilizou ferramentas múltiplas e em tempo real. Pessoalmente, o contato físico é intenso, mas quando a distância é balizada pela tecnologia, parece-me que se esquece do que costumamos nos expressar: “Cheek to Cheek”. Talvez seja o desequilíbrio do  ethos de Aristóteles, ora o excesso, ora a falta, grandiosa é a eqüidistância entre os extremos, o meio termo é a coragem. Aristóteles supõe haver sabedoria nessa situação intermediária.

 

Não reclamo mais da distância, mas sim da falta de equilíbrio entre os extremos. Não reclamo mais das opções, menos das “querências”, mais da falta de notícia. Não é possível quatro dias sem contato tecnológico, sem notícias cotidianas, sem noção do que acontece do outro lado, excluído de repente da vida do outro. Como se incluir novamente?

 

Como eu disse anteriormente, a modernidade disponibilizou ferramentas múltiplas e em tempo real. E-mail, MSN, orkut, celular, torpedo, Internet, etc... Uma notícia não faria mal, talvez até melhor do que se imagina. Sinto-me excluído deliberadamente, um “ser” descartável, não há o merecimento de uma notícia, não há preocupação de uma justificativa.

 

De onde estou, do meu ponto de vista, fico sempre na dúvida. Será que algo aconteceu? Alguma doença, algum ressentimento, algum mal entendido, alguma tragédia, algum nada mais? Uma mensagem dizendo, “vou sumir por alguns dias, não se preocupe”, assim a dor seria apenas da saudade e não da dúvida, afinal, pessoalmente, o contato físico é intenso e não se justifica ser diferente na tecnologia.

 

Talvez eu faça a mesma coisa, mas se eu sumir por mais de três dias, por favor, avisem a minha mãe...



Escrito por Alexandre Miranda de Souza às 01h20
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