"Quiero dormir un rato,
un rato, un minuto, un siglo;
pero que todos sepan que no he muerto;
que hay un establo de oro en mis labios;
que soy el pequeño amigo del viento Oeste;
que soy la sombra inmensa de mis lágrimas."
(Lorca)

 

Eu não havia entendido de imediato quando você disse que eu não existia, que eu era apenas um sonho. Agora vejo com mais clareza, não existimos em nós mesmos e não somos capazes de nos enxergar como integrados ao universo que nos rodeia. Temos de nos acostumar à não existência, ao não ser e ao não estar. Estou me diluindo na dimensão do continuum, em cada dia, que é dividido pelas horas, que se divide em minutos, e na conseqüência dos segundos...

 

Meu ser se multiplica em semanas, meses, anos, décadas, séculos e milênios...



Escrito por Alexandre Miranda de Souza às 14h54
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“Una ausencia de bosques, biombos y entrecejos

yerra por los tejados de las casas antiguas”.

(Lorca)

 

Não suporto este sol que invade minha janela. A poeira se acumula nos cantos da casa. O fonógrafo desliza vagarosamente sua agulha pelos sulcos do acetato. A modernidade está ao lado, ou melhor, foi deixada de lado. Deixemos de lado as coisas, ou melhor, deixemos para trás as coisas, esquecemo-las como é necessário ser...

 

Vagarosamente requer treinamento. Exercício de paciência. Requer a exaustão do estado “meta-mental”, ignorado por todos nós. Em algum momento de nossas vidas (nossas, no sentindo singular, de vidas que vivemos enquanto indivíduo), devemos nos “despejar” aos pés sagrados da alma “crística”, exatamente naquele instante em que nada cremos e nada mais nos dá suporte.

 

O mordente sol não auxilia minha procura. Na janela tudo se perde. Na  poeira os cantos se enchem. O fonógrafo toca minha vida em preto e branco, como os fios que preenchem meu rosto, escondendo a compunção que me angustia. Exatamente não é velocidade. A alma vaga entrelinhas que o tempo permite em fendas de contração e polígonos escalonados.

 

A ausência não é sábia, mas a sabedoria não está na presença, não consiste em conjugar o verbo estar, decerto, não está no verbo ser. Não há dúvidas, a certeza não integra o vazio que não se encaixa. Se o silêncio é fala tão eloqüente, porque então da prática da mentira? Porque tudo passa tão rápido e continuamos a brincar de “moto-contínuo” como se vivêssemos em pequenas eternidades?

 

Não existem mentiras, apenas verdades modificadas, como não existe nada em estado absoluto. Mas também não existem verdades, apenas ficção idealizada, como não existe nada em estado abstrato.

 

Meu ser aprendeu a tocar o intangível, a sentir o que o silêncio teima em contar, os segredos da alma que apenas sentimos. Meu ser decifra códigos etéreos. Não preciso mais ler palavras, nem pingos dizem tanto quanto o que se quer pensar intangível. Pensas que não sei? Chronos não me permite mais governar o tempo, ao contrário, com sua foice, faz pequenas marcas em meu rosto, como forma de compensação, permite-me sentir o universo em trespasse, das almas que se conjugam em mim.

 

Ignora-se que mais cedo ou mais tarde o tempo nos atropela. Substância em si mesma, incorpórea e serpentina, conjuga-se com a inevitabilidade, ainda assim, é melhor a ignorância do que o saber ou o sentir as coisas.

 

Há em mim um todo, e este todo está se desintegrando...

 

Como dizia Guimarães, realmente as pessoas, e as coisas não são de verdade!!!



Escrito por Alexandre Miranda de Souza às 14h22
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“Odian la flecha sin cuerpo,

el pañuelo exacto de la despedida,

la aguja que mantiene presión y rosa

em el gramíneo rubor de la sonrisa”.

(Lorca)

 

 

Porque estou sempre medindo as palavras?

Talvez pela necessidade de conhecer primeiro a sua dimensão...

 

Porque tudo passa tão rapidamente

E nós vivemos numa pequena eternidade...



Escrito por Alexandre Miranda de Souza às 10h07
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A expectativa e principalmente a espera pela prova, fizeram com que os alunos ficassem agitados. Muito agitados. O  barulho das vozes, o som da reforma que permanece insistentemente na escola, a falta de alguns professores, a dúvida se a impressão (da prova) ficaria pronta a tempo... tudo isso ajudava a aumentar o clima de sublevação que se instalava.

 

Eu fiquei ali, posicionado no corredor de entrada da escola, junto com a Cláudia, observando toda a movimentação. Alunos indo e vindo, tantos quanto as notícias ruins. Não que os alunos sejam ruins, as noticias é que ultimamente andam carregadas de ruindades.

 

Quando deu o horário de ir para a sala, peguei minhas coisas (na verdade, hoje não levei nada, apenas eu mesmo) e caminhei para o módulo de baixo da escola. Fui sem as provas e sem saber se daria aula ou se aplicaria prova. Por segurança, posicionei os alunos para a prova. Exigi silêncio, ordenação das carteiras, que os materiais fossem guardados, dei os avisos de praxe (se colar eu anulo a prova, se conversar farei anotação no relatório, puro terrorismo) e aguardei a chegada da incerta prova.

 

Enfim, a danada chegou... ninguém comemorou, apenas eu, por dentro (é claro), porque por fora, a cara era de mau (cena também). Contei as provas, separei por fileiras, coloquei na primeira carteira e solicitei que aguardassem o meu comando para que passassem as provas para trás.

 

Por um momento fiquei ali, parado, diante da sala. Quarenta alunos em silêncio aguardando o meu comando. Mas eu fiquei ali, parado, diante da sala. De repente me vi sentindo saudades... meu coração apertou... não foi cena... minha expressão facial mudou... a cara de mau passou... e senti saudades... não foi ansiedade, foi apenas saudades...



Escrito por Alexandre Miranda de Souza às 17h02
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“Eis algumas das coisas que aprendi na vida:

Que não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai ferí-lo de vez em quando e você precisa

perdoá-la por isto.

Que levam anos para se construir confiança e apenas segundos para destruí-la.

Que não temos que mudar de amigos se compreendemos que os amigos mudam.

Que as circunstâncias e o ambiente têm influência sobre nós, mas nós somos responsáveis

por nós mesmos.

Que ou você controla seus atos, ou eles o controlarão.

Aprendi que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as

conseqüências.

Que paciência requer muita prática.

Que existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar isso.

Que algumas vezes a pessoa que você pensa que vai lhe dar o golpe mortal quando você cai,

é uma das poucas que lhe ajudam a levantar-se.

Que só porque uma pessoa não o ama como você quer, não significa que ela não o ame com

tudo o que pode.

Que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens:seria uma tragédia se ela

acreditasse nisso.

Que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém. Na maioria das vezes você tem que

perdoar a si mesmo.

Que não importa em quantos pedaços seu coração foi partido; o mundo não pára, esperando

que você o conserte.”

 

(Autor desconhecido - Retidado do site www.paulocoelho.com.br)



Escrito por Alexandre Miranda de Souza às 15h48
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“Foi-se mais um dia... Cada criatura, tão pequena e insignificante

na multidão caótica da cidade,

leva agora para a cama as remanescências das incessantes

torturas de mais um dia de rotina,

perturbando o sono e sugando as últimas forças.

Preocupações, aflições, angústias, tristezas, decepções...

são os únicos sentimentos que ocupam as

vidas dessas almas, que no sono,

esperam esquecê-los. No dia seguinte, como que num estalo,

mal parecem ter dormido e logo se deparam com a

repetitividade opressora à qual novamente deverão se submeter.”

(Breno Castro)

 

 

Hoje fiz meu primeiro atendimento psicopedagógico. Não que eu já esteja adentrando a nova profissão, mas preciso escrever minha monografia de final de curso, selecionar os casos do meu estudo e, por coincidência, um aluno já havia me procurado há algum tempo precisando de apoio. Então, as coisas se casaram.

 

Fiz um atendimento de 40 minutos e ouvi coisas, do meu singelo ponto de vista, estarrecedoras. Pude perceber o quanto estou inexperiente diante de situações sócio-culturais “cotidianas”. A experiência eu não a tenho, mas procurei ouvir atentamente, tomar cuidado com as perguntas e principalmente, demonstrar, ou  passar confiança na relação que se estabeleceu no ato do atendimento.

 

Preciso estudar quatro casos e este foi apenas o primeiro, aliás, o início. Ainda terei de entrevistar pais, irmãos, observar cotidiano familiar, entre outras coisas. E desde já, coloco um questionamento como referencial, parâmetro para mim mesmo, enquanto profissional pesquisador. Como não me envolver emocionalmente nestes casos? Como não deixar estes sentimentos influenciarem minhas conclusões? Como evitar que minhas atitudes de intervenção não estejam maculadas por essa emoção que surge na entrevista, no olhar do paciente, na lágrima que escorre, no apelo que se faz, quando se pede “socorro”?



Escrito por Alexandre Miranda de Souza às 11h33
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“Ser ou não ser –  eis a questão.
Será mais nobre sofrer na alma
Pedradas e flechadas do destino feroz
Ou pegar em armas contra o mar de angústias –
E, combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer; dormir;
Só isso. E com o sono – dizem – extinguir
Dores do coração e as mil mazelas naturais
A que a carne é sujeita; eis uma consumação
Ardentemente desejável. Morrer; dormir;
Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo!
Os sonhos que hão de vir no sono da morte
Quando tivermos escapado ao tumulto vital
Nos obrigam a hesitar: e é essa reflexão
Que dá à desventura uma vida tão longa.”

(William Shakespeare, “Hamlet”, ato lll, cena 1.)

 

Pensar é construir nosso lugar no mundo.
Desta forma, o homem começa a interferir nas coisas,
a transformar a natureza e deixa de se submeter passivamente a ela.



Escrito por Alexandre Miranda de Souza às 15h16
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“Pois que tem o homem de todo o seu trabalho

e da fadiga do seu coração,

em que ele anda trabalhando debaixo do sol?

Porque todos os seus dias são dores,

e o seu trabalho, desgosto;

até de noite não descansa o seu coração“.

 

 

São três horas da madrugada. Os olhos não querem fechar. A mente está a mil. O coração apertado, parece querer parar. A janela do quarto está aberta e as cortinas escancaradas. Não há segredos a esconder, muito menos novidades a declarar. Apenas a brisa suave da noite quente penetra o quarto, espaço vazio que não se encaixa. Lá fora não há movimento. As luzes formam silhuetas, sombras que nos amedrontam. A escuridão nos dá medo. Mas há estrelas no caminho. O luar nos acompanha, onde quer que estejamos, em qualquer posição que possamos olhar, como seu rosto acompanha o pulsar do coração.

 

A vida nos ensina a dor muito cedo. Mas quando é tarde? A vida é uma estrada sem volta. Vaidade das vaidades. O que há debaixo do sol que não conhecemos? O que há no conhecimento que nos conduz a loucura? O que há na ignorância que nos permite a felicidade? O que há lá fora que não nos é permitido? Como Nietzsche dizia, o livre-arbítrio é uma mentira, é o complexo estado de prazer que faz o homem acreditar que manda e ao mesmo tempo confunde com o que executa, gozando da satisfação de achar que é sua própria vontade que triunfa. Será que o sujeito “eu” não é determinante na conjugação do verbo “pensar”?

 

Não há espaço para dormir. A brisa penetra o vazio que não se encaixa. Lá fora o pulsar do desconhecido nos dá medo. O sol logo se postará sobre nós e precisamos trabalhar. Que temos do trabalho além da fadiga? Porque todos os dias são dores? Porque até a noite não descansa nosso coração? Somos todos os dias violentados em nossas lembranças, fardo que carregamos até a morte, descanso exato para a fadiga do corpo.

 

E assim eu vou, de hora em hora, cronometrando o devir, desnudando, desmontando, desfazendo o meu ser, preparando para a colheita, o nascer, o novo ser, uma nova construção. Não há porque se render ao cansaço, falta pouco mais de uma hora, um dia que se desdobra sem fim, sem termo para as dúvidas, sem espaço para novas dores, sem espaço para a consciência, sem espaço para o próprio espaço. Há um vazio que não se encaixa.

 

Mas a janela permanecerá aberta. A brisa continuará a penetrar. Lá fora, a falta de movimento se prepara para um novo momento. Sem descanso, eu retomo o caminho...

 

“Há três coisas que nunca se fartam, sim, quatro que não dizem: Basta! Elas são a sepultura; a madre estéril; a terra, que se não farta de água e o fogo, que nunca diz: Basta!” (Provérbios 30, versos 15 e 16).



Escrito por Alexandre Miranda de Souza às 02h22
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“Todo silêncio é frágil”

“Toda palavra é uma gaiola de ouro”

“Toda unanimidade é burra”

 

 

Vou começar este post com uma frase do jornalista Luiz Caversan, “O duro é deixar a borboleta ir”. Quando eu li esta frase no contexto do artigo “A gaiola e a borboleta”, senti um calafrio, daqueles de dar medo. E talvez por isso resolvi escrever, não só por isso, mas pelo momento em que vivo e muito porque eu encontrei um razão (de viver) para mim, razão esta, que não está somente em mim, mas que se estende ao território estrangeiro onde não se pisa.

 

A beleza da borboleta me encanta. Sua fragilidade, suas cores, sua liberdade, sua metamorfose, sua capacidade de se diluir no tempo, se dissolver e se refazer em coisas que se confundem entre ambiente e ser, estar e querer.

 

Eu quis pegá-la com as mãos, mas tal fragilidade não se segura. Construí uma gaiola de ouro, com todo o carinho e amor que pude lá colocar, mas não vou prendê-la, pois nem todo ouro, nem todo carinho ou amor, poderão segurar seu fugaz temperamento. Como agir então?

 

Eu continuo aprendendo e minha ciência é empirista. Resolvi abrir a mão, deixar a palma como repouso, porto seguro, abrigo de céu de estrelas, observatório próprio para admirar o alheio, a beleza da borboleta que ali pousou. Como eu desejei fechar os dedos, segurar, reter, tomar, agarrar, fixar, estabilizar, aprisionar em minha gaiola... “Eu quero, eu adoro, eu venero, portanto vou construir uma gaiola de ouro para a minha borboleta”.

 

E essa gaiola estava pronta, eu não sou uma pessoa perfeita, queria mostrar um lado que você não conhecia e decidi destruir minha gaiola de ouro. Não, não posso aprisionar o que mais amo, preciso deixá-la livre, mesmo que distante. “Não importa, o fato é que saber apreciar a liberdade é uma arte, diga-se das mais difíceis”.

 

Então, estou do ponto de vista do observador. Quero apreciar suas cores, sua vibração, o bater de suas asas, a silhueta que se forma com o roçar dos raios de sol, a sinuosa trajetória dos seus vôos... Há lágrimas em meus olhos, como um imenso amor na palma das mãos. Há sorriso, mas também incertezas. Há complacência, mas também discordância. Há compreensão, e sobretudo, há liberdade.

 

Amar pensando em oferecer gaiolas de ouro não tem segredo: basta dedicar-se com afinco à ourivesaria da possessividade. Mas saber apreciar desapegadamente o vôo delicado da borboleta, isso é para poucos e bons”.

 

*As citações foram retiradas do artigo do jornalista Luiz Caversan.



Escrito por Alexandre Miranda de Souza às 12h01
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