"Não, diversas vezes não
Não há porque negar
Não uso da razão
Na hora de cantar
E é mesmo o coração quem rege o meu compasso
Não, não sou tão racional
Como era de esperar
E a lúcida palavra que eu ia dizer
Transforma-se num sopro em pura intuição"
(Oswaldo Montenegro)

 

Estou fechando as janelas, as portas, guardando os recados, enviando os e-mails,

Atualizando os últimos textos, pois a vida nos exige movimento e não podemos parar.

 

Pois, pede-se real estranheza tal declaração,

Mas, pode ser que ao apagar das luzes eu não mais esteja aqui,

Como também, no clarear dos recônditos mais íntimos, não mais lá eu esteja.

 

Porque, talvez, haja uma necessidade de fuga,

Sem covardia, mas por demais uma coragem de enfrentamento.

 

Percebo que o sol já está enfadado de tanto fingir movimentos,

Ao amanhecer, ao entardecer...

A lua, ainda mesmo que se mova,

Compartilha igual tristeza, o mesmo cansaço.

O barulho das vias urbanas já não faz mais sentido,

O silêncio da noite não me acolhe mais em seu regaço,

Antes, reconforto e acalento, hoje me faz ainda mais perdido.

 

Ouço crianças brincando, adolescentes enamorando,

Adultos se responsabilizando e velhos sendo esquecidos.

As árvores se encontram no mesmo lugar,

As pontes sobre os mesmos rios,

As estradas cortam os mesmos caminhos,

Não há nada que eu possa fazer.

 

Por isso, pode ser que no lumaréu que se apaga neste instante,

Eu não mais esteja por perto e a lufa-lufa das brasas crepitando,

Lutando para que o fogo não se apague, preencha o vazio que se formará...

 

Estou fechando as janelas, as portas, guardando os recados, enviando os e-mails,

Atualizando os últimos textos, pois a vida nos exige movimento e não podemos parar.

 

Então, meus amigos, não parem... mesmo que as luzes se apaguem e promovam a cegueira,

Ou que elas acendam de imediato e provoquem nova cegueira. Contudo, tateando nosso insosso desejo, encontraremos algo que buscamos...



Escrito por Alexandre Miranda de Souza às 12h18
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“(um vulto feliz de mulher)
Cantando um verso ou não
É por assim dizer
A musa da canção
Que eu nunca vou fazer”

(Oswaldo Montenegro)

 

Hoje eu revirei-te em fotos antigas, ouvi-te em músicas que na época eram minhas e agora são tuas também.

 

As fotos estão como eu... mudas... sem palavras... apenas expressando semblantes que no máximo podemos deduzir seu contexto. Foi minha agonia, minha ausência, minha distância...

 

Há um vestido azul envolto em ondas de alegria e brisas de satisfação. A vida era melhor que hoje? Enquanto coloco o vestido de lado, vejo sua elegância simples, o básico que você mesma gosta de dizer, o olhar protetor, o rosto perfilado e as lindas mãos em quase abraço. Essa foto, colocada junto à outra, sobre a minha cama, será guardada em lugar especial. Ah... e essa... a tradução pura de sua meninice... seu sorriso, seu jeitinho, o balanço do corpo, a pose, tudo ali me faz lembrar o dia que te vi, menina serelepe. Ainda procuro na caixa escura das minhas lembranças, outras fotos que ainda vou reclamar para mim. “Não, diversas vezes não, não há porque negar”, não uso a razão na hora de olhar essas fotos sobre a cama, espalhadas sem ordem e sem motivos...

 

São momentos que não são meus, agora estão presos à fotografia, colorida ou não, cortada, misturada, trabalhada, dedicada, rasgada, amassada, dobrada... São outros momentos, belos momentos, delicados e afetuosos, abraços, sorrisos, passagem, criança, adolescência, casamento, viagens... Tão belo encontro entre pai e filha...

 

Essas não são minhas, mas vou deixá-las aqui para que eu possa sempre vê-las. Essas eu as devolvo. Fotografias são propriedades do tempo, de repente, num segundo, rouba-lhe a vida e esta, fica aprisionada para sempre na lente óptica de Cronos, deus do tempo, relógio nosso de cada dia...

 

Perdoe minha agonia,  minha ausência, minha distância e meu quase silêncio... “Viver é querer ser diferente” e ser diferente é um processo que nos distancia do lugar comum e hoje, não estamos nesse lugar, pois prefiro falar em silêncio, nas entrelinhas de cada momento nosso, de cada instante que reverenciamos em homenagem à vida...

 

Hoje há em mim um oásis a tua espera...



Escrito por Alexandre Miranda de Souza às 13h36
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“E a amargura e o tempo

vão deixar meu corpo,

minha alma vazia...”
(Oswaldo Montenegro)

 

 

Não há garantia em minha certeza, somente o ardor de um sentimento.

 

O pensamento nos ocorre não quando queremos e sim quando quer, de modo que a garantia não há, principalmente porque não somos determinantes na conjugação do verbo “pensar” (Nietzsche).

 

Então, que a vida venha, se envolva bem de mansinho, que se aconchegue em mim. Abrirei a porta como da primeira vez. Meu coração irá disparar, pular, saltear. Meu abraço irá laçar teu corpo, envolto em minha proteção. O aperto será inevitável, como as bocas que murmuram suaves gemidos e os lábios que se tremem ao se darem como no primeiro beijo.

 

Se o “pensar” nesse momento insistir, deixemos de lado, junto com nossas roupas que já estarão espalhadas por todos os cantos. O momento é único, não será como o primeiro e não será como o último. Apenas será nosso momento. A entrega ultrapassa limites, barreiras, palavras e atitudes.

 

A cama, outrora sinônimo de descanso, será cansaço e fadiga. O verbo “pensar” será substituído esplendidamente pelo verto “amar”. E o mundo irá parar e todas as pessoas irão saltar, ficando apenas eu e você. Com o mundo somente nosso, não precisaremos nos preocupar com mais nada.

 

Findo o turbilhão de desejos, com a tempestade ao longe perdida no horizonte, apresentar-se-á o momento de se exigir o que seu inquietante ser almeja, enfim, o “pensar”. Farei o exercício contrário, o “esvaziar”... Deixarei a mente livre e positiva, deixarei meu corpo exausto sobre um móvel qualquer e farei da minha alma, meu ouvido pensante, sua austera, suave, terna e melhor amiga...

 

Não há garantia em minha certeza, somente um querer repetir-se sem fim...



Escrito por Alexandre Miranda de Souza às 15h54
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Há uma palavra na terra

Que tem encantos do céu;

Não é amor, nem esperança.

Nem sequer o nome teu.

 

Essa palavra tão doce,

De tanta suavidade,

Que me faz chorar de dor

Quando a murmuro: é saudade!

 

Florbela Espanca

Livro Trocando Olhares



Escrito por Alexandre Miranda de Souza às 14h54
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