“Pois não há por acaso algo mais seguro do que o próprio corpo?”
Nietzsche – Além do Bem e do Mal
Essa frase ficou martelando minha cabeça durante dias. Sua sutileza, seu contexto, seu contraditório trouxe-me à reflexão. Seria mesmo o mundo a incerta realidade que nos aventuramos e depois em fuga, poderíamos refugiar em nosso próprio corpo? Mas não tão simples assim a análise, mas a metafísica não nos traz a realidade e nem Nietzsche nos dá as respostas. Costumo dizer que o corpo é o asilo da alma, mas algo mais seguro?
Estive recentemente no CAPES – Centro de Apoio Psicológico e Social da região metropolitana de Belo Horizonte. Enquanto eu aguardava ali no corredor central, fiquei observando as pessoas que entravam e saiam. A maioria em condições graves de transtornos mentais. Era um trançar de gente, com modos estranhos e agitações espantosas. Entravam em salas e saiam das mesmas, sempre sozinhos. Falavam, riam, choravam... Confesso que fiquei extremamente incomodado.
Mas a frase de Nietzsche saltou em minha mente. E olhando aquelas pessoas num estado degradante, fiquei tentando desmontar a relação do corpo daqueles sujeitos e a segurança que poderiam ter ali. Não, ali não havia ninguém seguro, nem mesmo eu... Nietzsche sabia da insanidade da mente, ele não quis dizer o que estavam as palavras dizendo... na verdade ele foi muito simples em sua afirmação, pois criticava apenas aqueles que desfaziam do próprio corpo por uma filosofia extravagante, fanática e de uma vã ilusão. Não Nietzsche, ninguém está seguro em seu próprio corpo...
Escrito por Alexandre Miranda de Souza às 15h44
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Acerca da contradição humana
Apenas no escuro
conseguimos ver a luz da miserabilidade humana,
da nossa hipocrisia,
da nossa humilhação e insensibilidade.
(A.M.S.)
Nietzsche questionava o porquê da nossa não aceitação ao nascimento de uma coisa que pode nascer de uma contrária: “a verdade do erro; a vontade do verdadeiro da vontade do erro; o ato desinteressado do egoísmo ou a contemplação pura do sábio da cobiça”. Qualquer valor que concedamos ao verdadeiro nos levaria ao erro da obrigação de atribuirmos valoração maior à aparência, à vontade da ilusão, ao egoísmo e a cobiça. Sustentamos prodigiosos ensinamentos, acolhemos ao desespero do outro, apontamos o caminho, defendendo uma verdade que nos é estranha, que nos remete ao próprio estranhamento, mas que na prática, em nossa própria vivência, não conseguimos nos desfazer do espelho d’água que nos aprisiona, repetimos erros e somos surpreendidos por nossa própria deficiência... “Quem é Édipo aqui? e quem é a Esfinge?”.
O homem não é necessariamente a medida das coisas, nem por quilo de sal ou especiarias como nos primórdios, muito menos por números cifrados que alavacam uns em detrimento de outros. Não somos nem medida, muito menos mensuráveis. A falsidade de uma avaliação não pode constituir oposição ao princípio desta. Temos que conhecer a medida em que essa avaliação nos serve para a conservação de algo, da preservação do ser, conseqüentemente a manutenção da vida, dos estímulos, dos sentidos e do próprio eu. A filosofia de Nietzsche está além do bem e do mal, permite-se admitir que o não-verdadeiro é a condição da vida e negar a falsidade de uma avaliação equivaleria renunciar à vida.
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Hoje, o médico aconselhou-me a parar de ler, escrever, sentir tão avidamente os sentimentos, ouvir menos música, ser mais sóbrio e linear. O limite da loucura é o extremo de uma das pontas que estão atadas entre tantos novelos que devemos desenrolar. Aproveitei que já estava deitado e quis perguntar, se entre as proibições que estavam listadas, havia a admoestação para deixar de pensar e respirar... Detive-me ao ver seu receituário com tantos encaminhamentos e papéis multicoloridos que ele intencionava entregar-me... Não ficou na intenção, de fato entregou-me...
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Retomando o tópico de ontem: Qual será nossa finalidade? ¿vivir? – ¿hacer vida en común? – ¿llevar una vida de tren? – ¿malvivir? – ¿estar a la olla de otro? – ¿vegetar?
Escrito por Alexandre Miranda de Souza às 13h12
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Qual será nossa finalidade?
O que mais me atormenta não é ser conhecedor da morte e sim, não saber como seremos apresentados. Escrevo porque “há em mim uma sede de infinito” e desde pequeno, como sentimento implícito à vida que nos cabe, entrei dizendo “Morituri te salutant”, como os gladiadores saudavam o imperador ao entrarem na arena, entrei saudando a vida desta forma.
Quando entramos na vida, entramos numa forja. “Dardejando centelhas transitórias/No horror da metalúrgica batalha/O ferro chiava e ria!”. Assim vamos sendo moldados, com o ferro em brasa, sofrendo, berrando, tinindo, “na impossibilidade de reagir”.
Compartilhamos todas as passagens da vida com os animais, nascimento, doença, juventude, maturidade, velhice e morte, mas somente os seres humanos têm consciência de sua finitude. Mas qual será nossa finalidade? Nossa finitude se esbarra apenas na morte? Talvez não, pois a cada dia enchemos um lado da ampulheta, enquanto deixamos o outro vazio. Somos também finitos em nossas escolhas. Somos seres de opções e para cada uma delas, temos de aprender a perder milhares de outras. É a conta que a vida nos impõe. Precisamos aprender com a angústia das escolhas, que a consciência do que ganhamos e do que perdemos nós fará sujeitos de nossa própria existência.
Augusto dos Anjos cantou em seus versos o obstinado destino à morte que todos nós carregamos. Tão obstinado e pessimista, morreu prematuramente aos 30 anos. Enquanto aguardava seu fim, escreveu sobre sua própria finalidade: “Turbilhão teológico incoercível/Que força alguma inibitória acalma/Levou-me o crânio e pôs dentro a palma/Dos que amam apreender o Inapreensível!”. Por isso “há em mim uma sede de infinito”, um turbilhão teológico incoercível, sinto-me monstro diante de escolhas egoístas que preciso fazer, diante de uma ponte que por ora parece-me demasiadamente comprida.
Florbela Espanca deixou-nos um testemunho de obstinação diferente. Nela estava uma insaciável sede de amar, um ideário de vida que ao fim se transformou em sua dolorosa tragédia. Seu drama existencial é sua inútil busca de expressão. “Conheci a Beleza que não morre/E fiquei triste”. O amor era a base de tudo o que ela produzia, sentia-se incompreendida e não conseguia expressar-se: “O meu mundo não é como o dos outros; quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que nem eu mesma compreendo, pois estou longe de ser pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que se não sente bem onde está, que tem saudades... sei lá de quê!”.
Contraditoriamente somos todos envolvidos por esse sentimento que Florbela nos expõe. Uns mais, outros menos, uns gritam, outros silenciam, contudo, estamos envoltos nessa névoa que conhecemos como amor. Dependendo da forma como ele é expresso, a névoa é mais ou menos densa... Carpinejar diz de forma contemporânea “O medo é de dormir na luz/Lamento ter sido indiscreto com minha dor e discreto com minha alegria”. O amor perde o foco, torna-se indiscreto na dor, no sofrimento e nos esquecemos da nossa finitude, das nossas escolhas, da consciência do que ganhamos e perdemos... somos sujeitos históricos... vamos perdendo as “coisas” pelo caminho.
Se “há em mim uma sede de infinito”, é porque tenho a necessidade de compartilhar. Mas então esbarro no outro, sujeito social de desejo, tão contraditório e premente como o meu. Não esbarro somente n’ele, mas sim em algo que me completa. Não como o espelho que me reflete, não como a sombra que me acompanha, mas como os encaixes sóbrios, nas medidas exatas, nos momentos certos... Quero ser como o oleiro a ouvir o eco das variantes de seu trabalho instintivo. Quero sentir as suas proporções sutis, os seus secretos desejos, os seus não ditos, tocando suavemente com as mãos, as formas que vão se moldando ao sentimento que vamos compartilhando, vou despejando minha sede de infinito no espelho d’água de sua alma...
Cada um de nós tem sua finalidade, ando me perguntando o porquê de tudo, o porquê de minha própria existência... ando meio romântico, desejoso, acompanhado, mesmo estando só... mas principalmente amado, por um amor violento e intenso... Não quero o pessimismo de Augusto e nem a ansiedade de Florbela, afasto-me do desequilíbrio de Carpinejar e centro-me no equilíbrio que me resta. Bobagens, o amor que sinto, gostosamente tumultua minha pacata vida!!!
Escrito por Alexandre Miranda de Souza às 15h26
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Painter Song - Norah Jones
Se eu fosse um pintor Eu pintaria o meu sonho Se é esse o único jeito para você estar comigo Nós ficaríamos lá para sempre Como costumávamos ficar Debaixo dos redemoinhos do céu para todos verem E eu estou sonhando com o lugar onde eu possa ver seu rosto E eu acho que o meu pincel pode me levar até lá Mas apenas... Se eu fosse um pintor e pudesse pintar uma memória Eu subiria dentro dos redemoinhos do céu para estar com você Eu escalaria o céu para poder ficar com você...
Escrito por Alexandre Miranda de Souza às 13h26
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Amar não é como anunciar a fome...
Minha Begônia morreu, as violetas florescem e a Kalanchoe ainda permanece insensível, o austero corcel mantém-se imponente sobre a mesa, a TV permanece encaixotada sob ela, a ópera insiste nos autos do stereo, os canais atravessam a sala...
Todos têm fome, poucos sabem o que é o amor...
Escrito por Alexandre Miranda de Souza às 13h24
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Não quero ser compreendido,
conter em mim mesmo, estar incluído ou percebido.
Quero escrever para mim mesmo,
ou talvez para ninguém,
mas o melhor seria para alguém oculto, encoberto, escondido, mas não desconhecido...
Ouço Richard Wagner tentando entender a inspiração musical de Nietzsche...
Leio Nietz tentando entender sua influência na escrita de Wagner...
Ouço e leio ao mesmo tempo, pois na verdade, não quero entender, quero apenas sentir, embevecer-me com a loucura de Dionísio e a salvação de Cristo...
Enquanto Nietz, em sua doce loucura, encorporava Dionísio e Cristo, a dualidade humana, o "inquietante duplo carater", manifestava-se. Ao passo que, desejo executado, o perdão será a garantia de um novo desejo... Moto-contínuo, "um homem pode ir ao fundo do fundo do fundo se for...", "Basta sonhar...".
Escondo-me em palavras não ditas, palavras escritas, em suspiros e entreveros...
Quero gritar meu silêncio, em palavras imperceptíveis, em sã loucura, em processo de sigilo oculto... "um homem pode ir ao fundo, basta sonhar com você".
Quero olhar minha cegueira de frente, ouvir minha surdez insistente e tocar o vazio presente...
"Homem também pode amar e abraçar e afagar seu ofício porque Vai habitar o edifício que faz pra você E no aconchego da pele na pele, da carne na carne, entender Que homem foi feito direito, do jeito que é feito o prazer".
Escrito por Alexandre Miranda de Souza às 11h47
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BRASIL, Sudeste, BELO HORIZONTE, Homem, de 36 a 45 anos, Os posts são como fotografias...refletem apenas um momento...
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